Não fique triste! Aqui você verá que não existem motivos para desespero e pânico. Ainda há uma luz no fim do túnel para o nosso tão desprezado rock brasileiro. Ainda há um fio de esperança para quem aprecia uma boa música pop. Vanessa, Mauro, Habacuque, Edu e Vlad estão na ativa. Eles não vão nos abandonar assim tão facilmente.

 

Habacuque não queria gravar o disco em inglês. Com as novas experiências, influências e contatos principalmente com as bandas gaúchas que gravavam em português, ele achava que mais um disco em inglês seria uma perda de tempo. Por outro lado, a banda já possuia muitas músicas prontas para serem gravadas. Eram músicas muito boas compostas desde antes do primeiro disco, que não poderiam se perder.

Assim, o Maybees chegou a um consenso de que seria interessante tentar de novo, registrar aquelas músicas e, principalmente, registrar a sua evolução em um disco. A banda já havia crescido com os shows realizados, e o primeiro disco já não representava o que era o Maybees na época. "Como banda, a gente era melhor do que aquilo", coloca Mauro. Ou seja, o Maybees ainda tinha o que oferecer.

O impulso para este segundo disco foi a gravação de "Rain"para uma edição especial da Showbizz que sairia no final de 1999. O jornalista José Flávio Júnior pediu uma música e "Rain" foi a escolhida. A revista especial não foi lançada, mas "Rain"ficou linda! Melhor do que qualquer uma do primeiro disco, em nível de produção.

Paralelamente, ocorreram fatos que iriam influenciar o segundo disco e a carreira da banda. Através de um contato da Polythene Pam, que produzia o Nasi e os Irmãos do Blues (banda paralela de Nasi, do Ira), Vanessa foi convidada para cantar nos show do Ira a música "Isto é Amor". Na versão de estúdio, Nasi cantava esta música com Fernanda Takai, do Pato Fu. Vanessa excursionou com o Ira, fez alguns shows, e acabou conhecendo também a própria Fernanda. Vanessa passou de fã para colega de Fernanda, e cantou com ela em um show do Pato Fu, no qual os membros da banda fizeram um discurso bonito dando um voto de boa sorte a Vanessa e ao Maybees.

Nos camarins do Ira, o Maybees também pôde conhecer o Los Hermanos, que abria para a banda paulistana na época. Ali nasceu uma amizade, principalmente com Habacuque, que continua até hoje. Bom mencionar que o "fator Weezer"mais uma vez foi importante neste relacionamento, já que os caras do Los Hermanos também gostam muito da banda e ficaram impressionados com um CD de raridades que o Habacuque tinha.

Enquanto Vanessa fazia sucesso em grandes shows com grandes públicos, os demais membros do Maybees se juntavam aos amigos Eduardo 'Peixe' Fainguenboim e Ricardo Filomeno e se divertiam na noite paulistana como o Pussygatos, uma banda que tocava praticamente de tudo. Sem ensaios, sem responsabilidades e sem preocupações, só tocavam pela diversão despretensiosa e alguns trocados que pudessem surgir. E tocavam horas e horas em festas, uma experiência marcante de contato com o público. No repertório do Pussygatos estavam Los Fabulosos Cadillacs, Beach Boys, Bob Marley, forró, reggae e mais dessas "músicas de praia", como eles costumam classificar.

As experiências de todos foram um aprendizado para o Maybees. Cada um foi para um lado, para se reencontrar novamente crescidos e maduros, com novas referências que iriam influenciar no segundo disco. E dos contatos com Ira e Pato Fu surgiram os convites para Edgar Scandurra e Fernanda Takai participarem das gravações.

As gravações de "Picture Perfect"começaram em fevereiro de 2000 e se arrastaram ao longo do ano. A maturidade da banda ficou evidente. Desta vez eles aproveitaram muito mais as ferramentas que o estúdio proporcionava. Mais uma vez, arranjos de cordas (por Sílvio Augusto Catto Ribeiro) e metais (por Renato Farias) fizeram participações especiais. O encarte ficou a cargo do designer Elcio Kudo, colega de trabalho de Habacuque, aproveitando muito bem as fotos tiradas por Lucia Dossin. Desta vez o inglês e o português conviveram em harmonia no encarte.

Falcão participou mais de todos os processos da gravação, quis aprender detalhes técnicos e não se limitou a tocar bateria. Vale citar também que Edu e Falcão, naquele momento, estavam sob forte influência da black music. As trilhas sonoras de "Jackie Brown"e "Boogie Nights"não saíam de seus CD players. Isso influenciou bastante os arranjos do novo disco.

Com as bases gravadas, Fernanda pôde escolher entre "Enchanted Ones" e "Onion Taste Hater" e preferiu a segunda. John, seu marido e parceiro no Pato Fu, acompanhou e ajudou na gravação. O guitarrista do Ira também levou muito a sério sua participação. Em uma tarde, Scandurra chegou, ouviu a música ("Picture Perfect", que deu nome ao disco), gravou, mixou e deixou tudo pronto. Mauro se impressionou: "Entrar no feeling do jeito que ele entrou foi muito impressionante".

Mais uma vez, a composição das músicas ficou dividida entre Mauro e Habacuque. A novidade foi a estréia de Vanessa como compositora em "Enchanted Ones" e "Heaven is a Movie Theatre", ambas em parceria com Mauro. O CD abre com "Chord of Life", com arranjos que já demonstram a evolução da banda. "Too Late" traz um refrão difícil de se tirar da cabeça. Seguem grandes melodias como "Rain", "Understand You're Tired", "Remote Control" e a dobradinha de baladas "Picture Perfect" e "One Perfect Morning", sensacionais. "Heaven is a Movie Theatre" levanta o astral e "Erika" vem na sequência emocionando todo mundo e tornando-se hit nos shows. "Sunflower" é outra bela balada e "Outlaws" representa para este CD o que "Skyscrapering" representava no primeiro, desta vez trocando a incerteza sonhadora pela realidade. "Onion Taste Hater" traz o dueto Vanessa & Fernanda Takai, e o CD fecha com "Leave Me in Bed (I Don't Want to Argue)", que presta sua homenagem aos Beach Boys. Há ainda uma faixa instrumental pra fechar com chave de ouro.

Triste é saber que existem músicas muito boas gravadas nesta época que permanecem inéditas, como a country "Poor Girl You'd Be" e a linda "MIP", que ficou de fora por ser considerada muito parecida com Weezer, mas foi bem executada em alguns shows.

O fato de as músicas já fazerem parte do repertório da banda há algum tempo trouxe um certo cansaço e uma incerteza sobre o que iria acontecer com aquele disco. Já calejados com o retorno do primeiro, a banda encontrava-se num momento crucial: o que aconteceria se o segundo tivesse exatamente o mesmo retorno? O primeiro disco partiu do zero e atingiu um certo nível. O segundo iria partir já deste nível e dificilmente iria além dele. Claro que ele deu sequência à evolução, mas esta evolução não foi proporcional ao primeiro. Por exemplo: se no primeiro eles saíram em 20 matérias de jornais, seria normal que o segundo também alcançasse este número, mas seria difícil progredir para 40 matérias. Apesar disso, é bem evidente que o segundo disco vendeu e repercutiu ainda mais que o primeiro. Mas a banda não se deixou iludir pela avalanche de elogios, e manteve os pés no chão.

"Picture Perfect" deu coesão para a banda e para a carreira. As pessoas acreditavam que, se eles haviam lançado o segundo disco, ainda estariam por aí por mais tempo, lançando o terceiro, o quarto, o quinto... Falcão comenta: "Na minha opinião, o ápice da maturidade musical da banda foi a gravação do segundo CD e os poucos shows que demos com esse repertório." E Habacuque concorda: "Realmente esse disco foi mais interessante ainda que o primeiro. E o primeiro já foi cheio de energia e vontade. Esse segundo com certeza foi mais trabalhado mentalmente, não simplesmente um aceno de adeus."

Voltamos à música que retratava o momento da banda e a incerteza realista dominante: "Outlaws", cuja letra diz "pelo menos estamos todos juntos, desejando que pudesse durar para sempre... mas não vai."

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