Não fique triste! Aqui você verá que não
existem motivos para desespero e pânico. Ainda há
uma luz no fim do túnel para o nosso tão desprezado
rock brasileiro. Ainda há um fio de esperança
para quem aprecia uma boa música pop. Vanessa, Mauro,
Habacuque, Edu e Vlad estão na ativa. Eles não
vão nos abandonar assim tão facilmente.
"Picture Perfect" foi lançado
no começo de 2001 e repetiu a boa repercussão do primeiro
disco. Matérias em jornais, revistas e muitos comentários
positivos no site da banda. A propósito, o site oferecia
uma música em mp3, sobra de estúdio de "Picture
Perfect": a poderosa "Rush Hour", uma daquelas músicas
que dão vontade de acelerar se você ouve no carro.
A distribuição deste disco foi melhor
que a do primeiro, facilitada pela venda através de uma loja
virtual na internet. Desta vez não houve videoclipe, talvez
porque, depois do lançamento, a banda já estivesse
pensando no futuro e em mudanças. Foi nesta época
que o baterista Falcão chamou todos os integrantes para conversar
e avisou que estava saindo do Maybees. O motivo: estudar engenharia
de som no Canadá.
"Picture Perfect" foi lançado em
um grande show no Woodstock, em São Paulo, com direito a
trio de metais no palco, logo depois, outra apresentação
no Orbital, também em São Paulo, no show que marcou
a despedida de Falcão: "Depois eu fui pro Canadá
porque não aguentava mais o Brasil. Lá me juntei a
duas bandas: o Staticbed e o The Cielos."
A banda começou a pensar em nomes para substituir
Falcão temporariamente. Edu se lembra de ter questionado
"quem a gente conhece que toca bateria bem?". O nome escolhido
foi o de Vlad Rocha (lembra dele?). Vlad era conhecido do Maybees
desde os tempos de ESPM, e inclusive já tinha participado
de uma banda com Habacuque há tempos atrás. O contato
entre eles sempre existiu, e o convite foi feito.
Vlad esteve ligado à música durante
toda a vida. Começou com 7 anos a tocar piano com a tia,
que logo percebeu que ele levava mais jeito com a bateria. Influenciado
por diversos gêneros musicais, bateristas e percussionistas
de todo tipo (Ringo Starr, John Bonham, jazz, Rush), na adolescência
Vlad começou a levar mais a sério a vida de músico,
fez aulas de bateria e percussão na Escola Municipal de São
Paulo e chegou a participar do Festival de Inverno de Campos do
Jordão. Amigo de Falcão (seu nome está nos
agradecimentos do primeiro CD), Vlad aceitou o convite e achou que
iria apenas substituir o baterista por algum tempo.
Sua estréia na banda foi tocando playback
no Programa Livre, apresentado pela Babi no SBT. Foi o primeiro
playback da carreira do Maybees. O incômodo de se fingir tocar
foi superado pela energia da platéia que gritava e pulava.
"É possível fazer com honra. Mas legal não
é", revela Mauro.
Aí veio a estréia oficial de Vlad ao
vivo: o Festival Bananada, em Goiânia. O festival seria o
principal teste para o Maybees definir se Vlad tinha condições
de seguir em frente com a banda. Não só musicalmente
falando. Também era importante checar o relacionamento dele
com os demais integrantes, seu comportamento na viagem e sua reação
frente à pressão de se estrear ao vivo num grande
festival de bandas.
O nervosismo acabou com a primeira pratada tocando
"Heaven is a Movie Theatre". Logo todos perceberam que
Vlad já era um deles. "O Vlad foi pra Goiânia
como substituto do Falcão e voltou membro do Maybees",
lembra Habacuque. Essa adesão de Vlad à banda nunca
foi comunicada oficialmente a ele: "Nunca me pediram em namoro.
De repente a gente já estava morando junto".
Com nova formação, o Maybees continuou
os shows de divulgação de "Picture Perfect".
Vlad estreou oficialmente em São Paulo em um show no Tribe
House (ao lado das bandas Space Invaders e Monokini) que contou
com a participação especial de Diego Medina, do Video
Hits, cantando uma cover do Maybees para "Quinta Embalada".
Seguiram-se shows em diversas cidades (Taubaté,
São José dos Campos, Brasília - Festival Porão
do Rock) e outras casas paulistanas, além de participações
em programas de TV como o Musikaos (na Cultura, apresentado por
Gastão Moreira - tocaram "Too Late", "Heaven
is a Movie Theatre" e "Não Vou Mais" - título
provisório) e o RG (também da Cultura, apresentado
pela Soninha - tocaram "Erika" e a inédita "Kriptonita").
Nestas ocasiões, algumas músicas em português
foram sendo apresentadas para o público. Algumas letras inclusive
brincavam com a nova língua da banda, com versos como "não
vou mais ficar aqui sem compreender" ou "vamos falar a
mesma língua pro nosso bem". De certa forma, explicavam
o pensamento da banda e o que estava por vir.
Mauro conta que já não conseguia mais
compor em inglês. Passou seis meses sem escrever nada, o que
o deixou irritado. Começou a compor em português e
a sentir que esse era o caminho. Habacuque, que já era pró-português
há tempos, adorou. Vanessa, que tinha provado do gostinho
da língua portuguesa nos shows do Ira e do Pato Fu, também
gostou. Edu e Vlad não tinham restrições. Então,
por que não?
Decidida a mudança da língua, ficou
no ar outra questão que incomodava a banda: não era
só uma nova língua. Era uma nova postura. Era um novo
estilo. Era uma nova banda. Não era mais Maybees. As novas
músicas não eram coerentes com o estilo da banda,
e a coerência artística sempre foi uma característica
do Maybees. Não seria melhor parar e começar tudo
de novo? Mas como isso seria feito?
Nesta época, algumas idéias alternativas
começaram a surgir. Uma delas era a gravação
de um disco paralelo, uma trilha sonora para um filme inexistente.
Uma espécie de Gorillaz (o projeto paralelo de Damon Albarn,
do Blur) ou de Passengers (quando o U2 se uniu a Luciano Pavarotti
e Brian Eno para compor trilhas para filmes que nunca foram feitos).
Outra idéia foi a gravação de um disco instrumental,
coisa que Habacuque acabou fazendo e lançando com o nome
de Supertrunfo. Foram 20 cópias distribuídas entre
amigos, com músicas gravadas de forma caseira em um final
de semana. Era necessário para ele naquele momento ter outra
banda, sem o "peso" e a responsabilidade do nome Maybees,
livre para criar. Todos esses projetos pareciam ser muito bacanas,
mas o Maybees ainda existia e os integrantes não sabiam o
que fazer com a banda.
A oportunidade de colocar um ponto final veio com
o Festival Upload, em novembro de 2001. Um grande evento, com os
maiores nomes do rock independente do país. Estavam lá
Video Hits, Wonkavision, Bidê ou Balde e até a mítica
e sepultada Graforréia Xilarmônica, ressuscitada exclusivamente
para o festival. Na última noite, o Maybees deu um grande
show mesclando músicas em inglês e as novas em português,
e ao final da apresentação, foi anunciado o final
de um ciclo para a banda. Ninguém entendeu direito. O Maybees
tinha acabado? Como assim? Habacuque explica: "Deixamos no
ar a chave que trancou uma porta e que pretendia abrir as próximas".